(DE)COLONIALIDADE DE GÊNERO E DEVASTAÇÃO AMBIENTAL: IEMANJÁ E A LÓGICA DE DOMINAÇÃO EM MAR MORTO

  • Elaine Pereira Daróz Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP)
  • Natalie Veríssimo de Miranda Farias Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP)

Resumo

Sociedades patriarcais e coloniais (re)produzem discursos que associam a mulher e a Natureza como corpos passíveis de apropriação, apagando suas potências originárias e reforçando práticas de dominação. À luz da Análise do Discurso materialista (Pêcheux, 1995; Orlandi, 2020) e do conceito de colonialidade de gênero (Lugones, 2020), este trabalho analisa sequências da obra Mar Morto (Amado, 2012), nas quais a personagem Iemanjá é atravessada por formações imaginárias que a representam como mãe e mar — entidades sagradas ressignificadas por um olhar patriarcal que as torna disponíveis à violação e à posse. A articulação entre literatura e Análise do discurso nos possibilita compreender como a lógica colonial de gênero estrutura não apenas relações sociais, mas também sentidos que naturalizam a devastação de territórios e de corpos femininos. Neste contexto, o trabalho propõe uma escuta crítica das materialidades discursivas que sustentam tais lógicas, sinalizando a urgência de deslocamentos que desestabilizem o imaginário da dominação. Ao reinscrever Iemanjá como figura de resistência e ancestralidade, evocamos o potencial contra hegemônico dos saberes afro-diaspóricos e decoloniais para o enfrentamento da crise ambiental e da violência de gênero, ambos faces de um mesmo sistema de opressão.

Publicado
2026-02-02